Prática de Negociação

Porto Príncipe, Hotel Kinan, quarta-feira, 19 de março de 2008

 

 

Devido ao cansaço, serei breve esta noite. Irei comentar algo sobre o processo de negociação. Não aquele que está acontecendo em nossas importantíssimas reuniões, mas o que acontece diariamente nas ruas.

Como se pôde constatar, aqui há muita gente vendendo os produtos mais variados que se possa imaginar. Praticamente tudo acontece nas ruas!

Os haitianos são negociadores incríveis e qualquer estrangeiro desavisado é facilmente enganado por aqui. É preciso muita atenção e perspicácia.

O que acontece – na maior parte das vezes – é o haitiano oferecer o produto por um preço exorbitante, que pode ser reduzido para até (pasmem) 1/5 do preço inicial.

Foi exatamente o que aconteceu no dia de hoje, onde tivemos a oportunidade de apreciar e adquirir algumas pinturas. Após quase uma hora de conversa, fomos aos extremos: de que queríamos comprar 11 quadros e de dizer que não queríamos nenhum. Mas acabamos com uma transação boa para ambos os lados. Foi uma verdadeira aula de prática de negociação (risos). Cabe salientar que os vendedores são muito abertos para a redução dos preços e para a realização de descontos, principalmente se você for brasileiro e for comprar um bom número de produtos.

É algo muito singular que realmente chama a atenção de quem está acostumado a comprar seguindo o que está escrito na etiqueta do produto. Sem mencionar que é uma boa forma de conversar e de aproximar-se da população local.

Por hoje é isto! Até amanhã.

por Gustavo Ribas Adiers em 22/03/2008
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“Uma janela de possibilidades”

Porto Príncipe, quarta-feira, 19 de março de 2008 – 22h54min

 

 

Mais um dia de encontros importantes. A primeira autoridade visitada foi o Representante da OEA (Organização dos Estados Americanos) no escritório do Haiti, Arthur Gray. Ele nos recebeu com alegria e convidou duas especialistas do escritório para acompanhar as conversas. Na pauta, além das apresentações e demandas do professor Ricardo, foram inseridas pelo representante e as funcionárias que o acompanharam, informações sobre o andamento de diversas comissões para tratamento de temas de interesse jurídico específico.

Com o Presidente da Ordem dos Advogados Haitianos, Gervais Charles, foi especialmente abordada a questão do acesso à justiça no Haiti.

O último encontro do dia estava agendado com o Presidente do Senado, Senador Kelly Bastien. Trabalhou-se sobre as possibilidades de cooperação judiciária, penitenciária e mesmo educacional que podem vir a ser estabelecidas com a OEA e com o Brasil. A reunião foi marcada por um tom de otimismo, especialmente porque o senador ponderou que tem percebido que existe uma grande oportunidade atualmente de cooperação com os países do sul.

O espírito das conversas travadas esta semana com organizações internacionais, autoridades e sociedade civil haitianas fazem com que nos sintamos em meio a uma janela de possibilidades de estudos, cooperação, pesquisas, trabalhos, que poucas vezes se abre com esta amplitude. Saber aproveitá-la é valer-se de uma oportunidade para crescimento pessoal, mas, também, um dever de solidariedade para com um povo tão especial quanto sofrido, como o haitiano.

por Cristine Zanella em 22/03/2008
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“O trânsito aqui é muito peculiar”

Porto Príncipe, Hotel Kinan, terça-feira, 18 de março de 2008  

 

Hoje irei, mais uma vez, abster-me de falar sobre os compromissos formais, reuniões, dentre outros. Penso que seria extremamente maçante para todos os leitores deste blog ler somente sobre estes assuntos, reiteradamente. Então, tentarei descrever em palavras algo realmente intrigante no Haiti: o trânsito de automóveis.

A primeira observação que se faz é a não obrigatoriedade de registrar o carro. Portanto, há pouquíssimos carros emplacados, sendo que a maioria desta pequena fração é formada pelos carros oficiais, militares e pelos veículos de aluguel.

Devido à falta de estrutura das estradas (poucas asfaltadas), há uma preferência nacional por picapes de luxo, especialmente as asiáticas.

Outro ponto importante é a largura das ruas – muito estreitas – o que obriga aos carros estacionarem sobre a calçada. Em contrapartida, isso faz com que as pessoas tenham que se deslocar na rua.

O terreno montanhoso torna estas vielas ainda mais perigosas, que, somadas com a carência de conservação e sinalização, se tornaria uma mistura mortal no Brasil.

Mas é incrível! Enquanto estivemos aqui, mesmo sob estas condições, não presenciamos sequer um acidente ou atropelamento. Com certeza se deve ao curioso sistema de comunicação desenvolvido por eles, através da buzina e dos acordos tácitos sobre quem tem a preferência em determinada situação (os quais ainda não consegui compreender).

Contudo, isto não significa que os acidentes não aconteçam. Prova disto é a dificuldade de encontrar algum carro que não esteja batido ou arranhado.

Dirigir nestas ruas estreitas e traiçoeiras exige uma perícia realmente incrível do motorista. Assusta-me o fato de não existir pilotos haitianos competindo mundialmente (risos). O trânsito aqui é muito peculiar, algo muito difícil de expressar em palavras. Somente presenciando este lado curioso da vida haitiana para entendê-lo.

Por hoje é isto! Até amanhã.

por Gustavo Ribas Adiers em 19/03/2008
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Agenda Oficial

Integrantes da comitiva brasileira com Jean Baptiste Dorce e assessor

Porto Príncipe, segunda-feira, 17 de março de 2008 – 22h05min

 

Hoje o dia abriu-se com as atividades que devem marcar o tom desta semana: encontros de natureza institucional. Pessoas que devemos encontrar para divulgar os projetos que estamos desenvolvendo e que devemos desenvolver no âmbito desta relação Brasil-Haiti.

A primeira reunião estava marcada com o Presidente do Senado, Kelly Bastien. Atrasos no vôo fizeram com que a pauta do encontro (que será agendado para uma data posterior) fosse adiantada para o Chefe de Gabinete do Presidente. O que parecia ser um programa cansativo transformou-se em uma profícua experiência. O professor Ricardo abriu os trabalhos apresentando a disponibilidade da Comissão de Juristas da OEA para auxiliar na reestruturação das estruturas judiciárias haitianas bem como a possibilidade de cooperação no setor penitenciário.

Em seguida, foram apresentados o projeto Brasil-Haiti e os objetos de pesquisa dos quais se ocupam os membros da nossa comitiva.

Por fim, foi apresentado o projeto que está sendo desenvolvido pela equipe de imprensa. Sobre isto foi relatado que o objetivo do material audiovisual que está sendo produzido é transmitir a face do Haiti que não é conhecida através da apresentação das riquezas que o país tem (povo, cultura, valores, religião, história, etc).

Essa pauta foi seguida também nos outros dois encontros de hoje, com o Sr. Jean Baptiste Dorce e com Gérard Le Chevallier (Diretor de Assuntos Políticos e da Divisão de Planejamento da MINUSTAH).

Todas as autoridades que encontramos foram muito receptivas tanto à oferta da cooperação quanto às nossas iniciativas acadêmicas. A julgar pelo contentamento com a notícia dos nossos propósitos de divulgar, como diz o chamado do nosso projeto, “um novo olhar, sobre um novo Haiti”, diversas oportunidades de trabalho conjunto devem se desenhar através destas pessoas em um futuro próximo.

por Cristine Zanella em 18/03/2008
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“Não somos mais um daqueles grupos de estrangeiros”

Legenda da imagem - Coordenador do projeto Brasil-Haiti, Ricardo Seitenfus, e o Diretor de Assuntos Políticos e da Divisão de Planejamento da Minustah, Gérard Le Chevallier

 

 

Porto Príncipe, Hotel Kinan, segunda-feira, 17 de março

 

O dia começou um pouco mais tarde para mim. Após a saída da delegação que foi a Jeremie (às 5h30), pude voltar para o quarto desfrutar de mais alguns preciosos minutos de descanso.

O primeiro compromisso foi às 10h com Prof. Ricardo Seitenfus, no restaurante do hotel. Ele nos passou a agenda da semana e nossos futuros compromissos com autoridades haitianas e da MINUSTAH. Encontros estes que servirão de base para a elaboração de um relatório sobre uma possível cooperação jurídico-institucional entre a OEA e o Haiti.

Como minha colega Cristine irá tratar acerca destas reuniões, optei por fazer uma abordagem sobre algo que me chamou muito a atenção: a importância, a surpresa e a felicidade (um pouco contida) das autoridades haitianas ao tomar conhecimento do projeto desenvolvido por nós no Brasil.

O Projeto Brasil-Haiti realmente tem “aberto portas” e amenizado as tensões nestes encontros. Pude notar que – através da apresentação do trabalho desenvolvido pelo projeto – há uma reformulação instantânea do preconceito que as autoridades haviam formado sobre nossa delegação, um abandono imediato do velho estereótipo: percebem que não somos mais um daqueles grupos de estrangeiros, “especialistas”, que objetivam impor suas idéias mirabolantes, elaboradas dentro de um invólucro de uma realidade totalmente distinta da existente aqui.

Estas autoridades tiveram a sensibilidade de notar que o objetivo do nosso trabalho não é “laboratorial”, onde o povo haitiano serve de cobaia para nossos estudos e projetos. Compreenderam perfeitamente a profundidade do lema do Projeto – “um novo olhar sobre um novo Haiti”.

por Gustavo Ribas Adiers em 18/03/2008
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República de Porta au Prince

(HOTEL KIMEN – HAITI), sábado, 15 de março de 2008 – 18h15min

 

Depois de uma peregrinação cansativa desde a saída do Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, passando pelos aeroportos do Rio de Janeiro (onde tivemos de aguardar por duas horas depois de um vôo com problemas para o pouso e a locomoção posterior dos passageiros) e do Panamá (apesar de belíssimo, arejado, cheio de free-shops tentadores e pontos de acesso livre à Internet), chegamos, finalmente, a nosso destino: A República de Porta au Prince.

Apesar de haver acompanhado do avião o país que insinuava seus contornos por traz das nuvens, somente quando desci as escadas e ouvi os primeiros sons do Haiti é que percebi, de fato, que deveria ter dado mais atenção ao alerta que nos fez o Prof. Ricardo. Explico: Desde o primeiro indício que tivemos de que viríamos ao Haiti, o Professor Ricardo Seitenfus nos precavia: desistam enquanto é tempo, depois da primeira vez, o Haiti passa a ser parte do ser que o visita, não se desprende, não nos larga jamais. Os sons do Haiti eram risadas amistosas, acompanhadas de uma música bem marcada, de batida conhecida, mas ainda assim totalmente distinta da nossa. Cinco músicos não apenas recebiam aqueles que vinham pela primeira vez ou regressavam ao Haiti com instrumentos de percussão, gaita e algo que parecia com o nosso bandolim, mas divertiam-se nessa tarefa, dançavam e – como há de ser quando se tem essa paixão no que se faz – faziam com que as pessoas diminuíssem o passo e parassem alguns minutos, hipnotizadas pelos músicos e pela canção. Os primeiros sons do Haiti foram coerentes com as primeiras imagens que me apresentou: gente colorida, ruas coloridas, nada monocromático, nada monótono. Pessoas nas ruas e ruas de pessoas, como se não houvesse vida privada, em interiores, em paredes. O Haiti que vi  acontece fora. O Haiti que vi é o que Fernando Pessoa, que talvez nem o conhecesse, chamaria de “não ter dentro”.  

E porque não tem dentro é que eu sigo lhe observando, ansiosa por retê-lo, todo, em meu campo de visão pequeno, limitado para tudo que me mostra. Agora é noite. Amanhã planejamos uma caminhada em busca da pintura local, que é fascinante. Preciso, agora, depois de 24 horas de viagem, de um bom banho e um chimarrão para voltar ao Sul
por Pâmela Marques Marconatto em 16/03/2008
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Pablo Neruda, El Egoísta.

Panamá, sábado, 15 de março de 2008 – 11h30min

 

“Ésta es la hora

de las hojas caídas, trituradas

sobre la tierra, cuando

de ser y de no ser vuelven al fondo

despojándose de oro y de verdura

hasta que son raíces otra vez

y otra vez, demoliéndose y naciendo,

suben a conocer la primavera.”

 

Pablo Neruda, El Egoísta.

 

 

Abro este diário com as célebres palavras do grande poeta chieleno, pois elas traduzem exatamente todo o sentimento de transformação que, com absoluta certeza, irei passar nos próximos dias com esta experiência maravilhosa e tão singular.

Sinto-me como as folhas descritas por Neruda: “caídas, trituradas” por uma realidade brasileira tão frágil em seus valores.

Assim, pretendo ir “ao fundo”, “despojando-me de ouro”, com o objetivo simplista de ser “raízes outra vez”, renovar, renascer! Mesmo que para isso seja imperioso “destruir-se”, para que, enfim, possa “subir” novamente para “conhecer a primavera” com novas perspectivas.

 

Bom, vamos aos fatos! Chegada ao aeroporto Salgado Filho (sexta-feira), após uma noite tranqüila no hotel. Horário: 12h20min. Saída prevista para o vôo: 20h30min. Por que ir tão cedo ao aeroporto? Você deve se perguntar. Objetivo simples: economizar uma diária no hotel (risos). Felizmente, não esqueci de alguns livros, computador, celular, etc – boas companhias nestes momentos de solidão.

Com check-in realizado, soubemos que nosso vôo iria atrasar em 30 min devido ao acúmulo de aeronaves no aeroporto de Congonhas (nossa primeira parada), que ocorreu após o mau tempo durante o dia no Rio de Janeiro.

A saída de Porto Alegre aconteceu às 21h10min (sexta-feira). Para quem já estava há 9 horas no aeroporto, em sua primeira experiência aérea, senti-me como Tom Hanks, em “O Terminal”... (risos)

Por hoje (sábado) é isto! Até amanhã.

por Gustavo Ribas Adiers em 15/03/2008
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Sim, estou de partida para o Haiti.

Porto Alegre, sexta-feira, 14 de março de 2008 – 19h55min

 

Em uma de suas obras, Saramago anunciou que em determinado momento o protagonista mal sabia, mas o destino já projetava suas mãos para alcançar-lhe, em algum momento, no futuro. Pois bem, sinto-me vivendo o momento em que o destino finalmente encosta no protagonista de “O conto da ilha desconhecida”. Sinto que o passado me encontrou e agora, neste aeroporto de Porto Alegre, reunida com os companheiros de viagem, tudo que projetamos como ideal e distante começa a fazer-se realidade. Sim, estou de partida para o Haiti.

por Cristine Zanella em 15/03/2008
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“Hay que andar tanto por el mundo para constatar ciertas cosas...” (Pablo Neruda, Jardin de Invierno)

-Porto Alegre, sexta-feira, 14 de março de 2008 – 18h18min

 

 

Há mais de um ano a palavra Haiti foi incorporada a meu vocabulário e às minhas coisas cotidianas. E carregar um país como o Haiti na fala, na escrita, nas coisas lidas e compartilhadas não é simples, como não é simples o trato das coisas ambíguas, contraditórias, complexas, ricas. Sentada aqui, aguardando o embarque que promete atrasar em pouco mais de uma hora, os debates que já travei em nome desse país me voltam à mente... Quantas explicações e justificativas sobre o que farei lá ou sobre o que, de fato, representa este pequeno e problemático ator, num contexto de tantos e tão poderosos no cenário internacional... No entanto, desde o momento em que comecei a organizar as malas e imaginar a viagem, tudo que sabia formalmente sobre o Haiti deu lugar a algo mais íntimo, menos explícito, e ele se tornou, essencialmente, um desafio particular. Sempre ouvi, nas minhas aulas de antropologia, que o verdadeiro papel do cientista é estranhar o cotidiano e aproximar o exótico. O toque de Midas está em constatar algo novo naquilo que já parece trivial e conhecido e conseguir encontrar elementos comuns, que dêem sentido ao que, à primeira vista, parece distante e incompreensível. Esta síntese é o que busco no Haiti. Mas como toda viagem é também uma mudança de olhar, a síntese perfeita estaria em descobrir o novo em mim mesma, enquanto me aproximo de um país e de uma gente tão diversa...É aí que Pablo Neruda me parece sussurrar: “ hay que andar tanto por el mundo para constatar ciertas cosas...” e eu aguardo, ansiosamente, o que me fará constatar o Haiti.

 

 

por Pâmela Marques Marconatto em 15/03/2008
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Porto Alegre, quinta-feira, 13 de março de 2008

 

“Estou em um hotel aqui em Porto Alegre. Até agora tudo bem... meio nervoso, porque não sei o que vou encontrar lá no Haiti. Mas o que me preocupou um pouco mesmo foi a vacinação. As doses contra febre amarela estavam em falta na época, em Santa Maria; muitas pessoas procuravam a vacina com medo de um surto da doença na região; então, teve fila e demora pra fazer. Mas o problema maior foi quando li atrás do cartão que me deram: ‘válido em todo o território nacional’ (risos). Fui me informar se era preciso trocar o cartão e como faria isso... aí me disseram que somente em Porto Alegre, na sede da Anvisa, conseguiria o cartão internacional de vacinação. Por isso, antecipei minha vinda pra cá, em um dia. Agora estou mais tranqüilo.”

por Gustavo Ribas Adiers em 14/03/2008
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